A crise institucional aberta pela renúncia do presidente Jânio Quadros terminou frustrando um plano que, se executado, ganharia, com certeza, um lugar de destaque numa antologia mundial dos desvarios políticos: o presidente queria anexar a Guiana Francesa ao território brasileiro, numa operação militar de surpresa – uma investida no estilo da frustrada anexação das Ilhas Malvinas pela Argentina, em 1982.

A invasão das Malvinas deflagrou uma guerra entre Inglaterra e Argentina. Qual teria sido a reação internacional a uma aventura expansionista brasileira na Guiana Francesa? Jânio Quadros chegou a convocar para uma audiência secreta em Brasília, o governador do Amapá, Moura Cavalcanti, um político que, anos depois, durante os governos militares, ocuparia o Ministério da Agricultura do general Garrastazu Médici e o governo de Pernambuco, por eleição indireta.

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Moura Cavalcanti estava disposto a cumprir a surpreendente determinação do presidente: afinal, tinha sido nomeado para o cargo de governador do Amapá pelo próprio Jânio Quadros. Ordens são ordens.

jânio quadros

Além de dar a ordem a Moura Cavalcanti, o presidente passou, diante do governador, uma mensagem por rádio para um comandante militar, com a orientação textual:

-Estudar a possibilidade de anexar ao Brasil a Guiana Francesa – se possível, pacificamente.

“Eu me recordo dos termos com exatidão“- disse Moura Cavalcanti, numa entrevista gravada no Recife.  Já abalado por uma doença renal que o mataria meses depois, Moura Cavalcanti  descreve, com detalhes, a cena surrealista que presenciou em Brasília, como testemunha e personagem, num dia de 1961:

Repórter – Que ordens o senhor recebeu do presidente Jânio Quadros, em Brasília, em relação à Guiana Francesa?

Cavalcanti: Quando o presidente Jânio Quadros analisou o processo de venda de manganês para os países estrangeiros, me deu a seguinte ordem: Defenda os interesses nacionais acima de qualquer outra coisa. A propósito: eu acho que chegou a hora de resolver definitivamente isso. Por que não anexarmos a Guiana Francesa ao território brasileiro?

Repórter – Que reação o senhor teve ao receber esta ordem?

Cavalcanti: Uma reação violenta. Primeiro, o seguinte: não tinha estrutura para agir como um conquistador. Não tinha sonhado em conquistar terras, nas minhas andanças por Macaparana ( terra natal do ex-governador, em Pernambuco). Quando muito, tinha pensado em aumentar o meu engenho… Andei de um lado para o outro; fiquei confuso, evidentemente. E Jânio Quadros me disse: “Sente aqui !’’. Eu me sentei junto ao telex. E ele passou um telex a um militar que, me parece, era o chefe do Estado Maior das Forças Armadas’’.

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Repórter – Que comentário Jânio Quadros fez sobre o plano?

Cavalcanti: Jânio Quadros me disse : “Um país que dominar do Prata ao Caribe falará para o mundo !’’. O presidente olhou o pequeno papel que tinha nas mãos, com a ordem. Olhou o mapa do Brasil, imenso, na parede. Balançou lentamente a cabeça, antes de dizer que um país que fosse do Prata ao Caribe seria respeitado e dominaria o mundo’’.

Repórter – Por que é que esta ideia do presidente não se realizou?

Cavalcanti: Porque Jânio Quadros renunciou dias depois. A conversa com Jânio ocorreu em agosto de 1961, às vésperas da renuncia.

Repórter – Como é que seria feita, na prática, esta anexação?

Cavalcanti: A anexação da Guiana Francesa começaria com uma visita de Jânio Quadros à Amazônia. Uma esquadra chegaria ao cais do porto, no Amapá.

Repórter – O principal motivo da anexação seria econômica?

Cavalcanti: O presidente queria evitar a saída de minérios do território brasileiro. A saída de minérios era uma coisa incrível. Uma parte saía através da Guiana; outra através do nosso porto.

Repórter – Que outra orientação ele deu?

Cavalcanti: Janio falou muito sobre o disciplinamento do trânsito dos minérios.

Repórter – O senhor estava disposto a cumprir a ordem do presidente?

Cavalcanti: Eu estava disposto a cumprir o que ele desejava.

Repórter – O projeto, então, só não se realizou por causa da renúncia?

Cavalcanti: A minha parte eu cumpriria! (silêncio). Em um mês, eu criei uma Polícia Militar.

Repórter – Como seria feita a anexação? Através da abertura de uma picada na selva?

Cavalcanti: Cabia a mim a abertura da picada, até Oiapoque. (onde havia uma base militar brasileira e uma base militar francesa). Vi a queda das castanheiras. Quando recebi a orientação do presidente, fui para a fronteira. Consegui, com uma base americana que ficava localizada no Caribe, um helicóptero.Eu me lembro de que um assessor me dizia: “Se esse helicóptero cai na floresta amazônica, vai dar manchete!  Helicóptero cai e morre governador e secretário !’’.

Repórter – Quando o presidente Jânio Quadros falou sobre a anexação da Guiana, só estavam no gabinete o senhor e ele?

Cavalcanti: Só estávamos eu e o presidente. Antes, ele não me disse que eu não levasse ninguém nem me pediu para que eu não falasse. Disse, apenas, que o assunto seria secreto.

Repórter – Que outras pessoas souberam desta conversa, na época ?

Cavalcanti: Cordeiro de Farias (marechal) soube; Golbery do Couto e Silva soube, José Aparecido de Oliveira, tenho a impressão, soube.

Repórter – O ministro das relações exteriores, Afonso Arinos, estava presente?

Cavalcanti: A este encontro meu com o presidente, ele não estava presente. Mas, como ele dizia que os ministros eram ministros de verdade, Afonso Arinos deve ter sabido.

Repórter – Como é que o senhor avalia este episódio hoje? Que importância este plano teria para a história do país?

Cavalcanti: Hoje, nós estamos diferentes.

Repórter – Mas, na época, a anexação poderia ter acontecido?

Cavalcanti: Poderia! Poderia ter acontecido. E seria aceito pela França. A base francesa tinha um coronel que vivia bêbado. Era um batalhão de elite – que foi para dentro da selva. A gente via que eles tinham desejo que aquilo acontecesse. A anexação seria uma operação militar. Uma estação de rastreamento seria criada.

Repórter – Depois que recebeu a notícia da renúncia do presidente, o senhor se sentiu aliviado diante da perspectiva da invasão da Guiana?

Cavalcanti: Tive um sentimento de perda. Eu pensava que o caminho era aquele. Pode ser orgulho meu.