Eram 15 horas (de Brasília) do dia 11 de outubro de 1984. Dois dias antes, cinco navios de guerra brasileiros e cinco americanos – entre eles um submarino, armado com mísseis e movido a combustível nuclear – tinham acabado de zarpar da Baía da Guanabara com destino a Salvador. A viagem fazia parte de exercícios militares envolvendo a Marinha dos dois países. As fragatas já tinham passado pela costa do Espírito Santo e já estavam a cerca de 115 milhas ao leste do Arquipélago de Abrolhos, no Sul da Bahia, quando ocorreu o inesperado: de repente, o Submarino Nuclear Snook emerge repentinamente e navega em rumo de colisão, passando a menos de dois metros da Fragata União (F45), da Marinha brasileira. Mas uma manobra heróica do comando da embarcação nacional evitou o que poderia causar uma tragédia. Por um milagre, a fragata brasileira não afundou o submarino americano, o que provocaria a morte de centenas de militares – entre praças e oficiais dos dois países. Quase 28 anos depois o caso vem a público por meio do Blog do Elimar Côrtes, que, com exclusividade, entrevistou protagonistas desta história que foi classificada como “extremamente sigilosa”,  à época, pelo governo brasileiro.

USS Snook no rio de janeiro
USS Snook no rio de janeiro

Para entender o contexto da importância dos exercícios militares naquele período de chumbo, é preciso recordar que, dois anos antes, Argentina e Reino Unido haviam encerrado uma guerra pelo domínio das Malvinas aqui mesmo no Atlântico Sula. Vitória dos britânicos. O Brasil, em 1984, vivia os últimos dias de uma ditadura militar que durou 20 anos.

Os tempos sombrios da guerra no Atlântico parecem estar agitando a cabeça de muitos neste momento, em que o fim do conflito nas Malvinas completou 30 anos. O atual governo argentino quer a reabertura de negociações sobre a soberania das ilhas e denuncia que o Reino Unido militarizou a área após o envio de um navio britânico.

A Guerra das Malvinas, que começou em 2 de abril de 1982, durou 75 dias. Ao todo, 258 britânicos e 649 argentinos morreram no conflito. Por causa da guerra, os argentinos, que sempre participavam de exercícios militares ao lado de Brasil, Estados Unidos e Uruguai, em 1984 ficou de fora da Operação Unitas XXV porque consideravam os americanos aliados dos britânicos.

A Fragata União estava com uma tripulação de 220 homens, entre oficiais e praças brasileiros e americanos. Já o submarino Snook transportava 83 marinheiros, apresentando também uma tripulação mista, de brasileiros e americanos.

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O então sargento Marco Antônio Gomes, hoje advogado criminalista que atua no Espírito Santo, fazia parte da tripulação da União. No momento do incidente, ele estava no que os marinheiros chamam de passadiço, a parte mais alta da F45, onde fica instalado o Comando Visual da embarcação.

A foto mostra o Snook emergindo e encostando na F45
A foto mostra o Snook emergindo e encostando na F45

Naquele 11 de outubro de 1984, véspera do dia de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, o sargento Marco Antônio, que entrou na Marinha em 1969, estava de folga e resolveu fotografar para um concurso de fotos navais.

“Minha intenção era fazer fotos para concorrer ao concurso de melhor fotografia pela Revista NoMar. Aproveitei a folga para fazer fotos de pouso e decolagem de helicópteros, lançamento de mísseis…”, relembra Marco Antônio.

O então sargento estava no passadiço, observando melhores ângulos para fotos. Naquele momento, ele já estava com sua máquina fotográfica posicionada para fotografar um cardume de golfinhos que acompanhava a nossa rota. De repente surgiu na proa da fragata o submarino americano:

“Se o submarino colidisse com nossa embarcação, de quase 4.000 toneladas, poderia causar avarias de imensa gravidade”, calcula, quase 28 anos depois, o agora advogado Marco Antônio Gomes.

“Mas, com certeza, o Snook (submarino) iria sofrer muito mais, pois, se batesse, certamente iria capotar e depois afundar, porque nossa fragata passaria por cima dele”.

Ninguém, é óbvio, queria isso. Se o submarino afundasse, toda sua tripulação – formada por 83 pessoas, entre americanos e brasileiros – morreria. Além do mais, se o Snook batesse na fragata, atingiria o domo-sonar, que fica por baixo do navio, o que poderia causar um grande estrago e a embarcação brasileira iria a pique.

Além da União, o Brasil levou para os exercícios a Fragata Liberal, o porta-aviões Minas Gerais, o navio tanque Marajó e um contratorpedeiro. Já os Estados Unidos levaram o US Concord, US MacDonough, US Thorn, o US Talbot, além do submarino Snook.

As fragatas brasileiras e americanas que participavam dos exercícios estavam a 115 milhas – o que corresponde a 277 quilômetros – da costa, mais precisamente na direção de Abrolhos, no Sul da Bahia. Ainda, portanto, em águas brasileiras, já que o tratado internacional determina que a área do Brasil no Atlântico Sul é de 200 milhas – em direção à África –, o que representa 370 quilômetros. As embarcações estavam na longitude 037°, 14W e latitude 14°, 44S.

“Só tive tempo de fazer a foto”, foi a reação do sargento Marco Antônio. “E era a última chapa que estava na máquina. Já havia gastado todas com fotos internas no navio”.

A história de como o submarino encostou na Fragata União foi muito mais dramática. O primeiro a ver o Snook bem à frente da F45 foi o marinheiro que fica de vigia. Ele fica postado na parte superior do navio. Reagiu incrédulo à aproximação do submarino. Com voz baixa, o marinheiro, que estava num posto acima da cabine do comando, quase que suspirou naquelas exatas 15 horas de 11 de outubro de 1984: “Alvo a zero, zero, zero”.

O sargento Marco Antônio lembra que os radares estavam funcionando normalmente, mas não detectaram a emersão repentina e quase fatal do submarino, em surpreendente e inadmissível rumo de colisão com a Fragata.

Ainda cético, o comandante do navio determinou que o vigia da embarcação verificasse a correta direção do alvo apontado e identificado por sua torre. Passaram-se alguns segundos – mas, para quem estava na fragata, parecia uma eternidade – e o marinheiro respondeu. Desta vez, com a voz alta:

“Confirmo: alvo a zero, zero, zero. Me parece um submarino. Vamos colidir…”

Logo, o comandante da Fragata ordenou ao sargento que estava no timão da embarcação a virar à esquerda numa manobra arriscada, porém feliz. O sargento obedeceu e o lado do boreste da fragata passou raspando no casco do submarino.

“Se ocorresse o acidente, seria trágico”, diz, 28 anos depois, o vice-almirante Lacerda Freire, em conversa, por telefone.

Informações: Blog do Elimar Côrtes