História 8 min
Aracy de Carvalho, a brasileira que ajudou judeus a fugir do nazismo
Neste artigo
- Hamburgo antes da guerra: uma brasileira no centro da crise
- A barreira brasileira: vistos, antissemitismo e a Circular Secreta 1.127
- O trabalho de salvar: papéis, abrigo e embarques
- Guimarães Rosa no consulado e a escolha de permanecer
- Reconhecimento tardio e memória pública
- Imagens do artigo original
- FAQ
- Perguntas frequentes sobre Aracy de Carvalho
- Quem foi Aracy de Carvalho?
- Por que ela ficou conhecida como Anjo de Hamburgo?
- O governo brasileiro apoiava a entrada de judeus refugiados?
- Aracy de Carvalho recebeu reconhecimento internacional?
- Leia também
- Fontes e leituras complementares
Aracy de Carvalho entrou para a memória do Holocausto por uma razão rara: ela agiu dentro de uma repartição oficial, em plena Alemanha nazista, para abrir caminhos de fuga a judeus que tentavam deixar o país. Funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, usou a burocracia, os vistos, os passaportes e a rotina consular contra a perseguição que avançava diante de seus olhos.
A alcunha de “Anjo de Hamburgo” ajuda a fixar sua imagem pública, mas também pode simplificar uma história mais dura. Aracy atuou em uma zona de risco, cercada por controles nazistas e por instruções restritivas do próprio governo brasileiro. Seu caso expõe um ponto incômodo da história nacional: durante o Estado Novo, o Brasil salvou algumas vidas, mas também fechou portas a muitos refugiados judeus.
Hamburgo antes da guerra: uma brasileira no centro da crise
Aracy Moebius de Carvalho nasceu em Rio Negro, no Paraná, em 1908, filha de pai brasileiro e mãe alemã. Depois de se separar de Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve seu filho Eduardo, mudou-se para a Alemanha na década de 1930. O domínio do português, do alemão, do francês e do inglês facilitou sua entrada no consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a trabalhar na seção ligada a passaportes e vistos.[1]
Hamburgo era uma cidade portuária decisiva para quem buscava sair da Alemanha. A perseguição aos judeus, iniciada logo após a chegada de Adolf Hitler ao poder em 1933, ganhou formas cada vez mais agressivas: exclusão profissional, violência de rua, leis raciais, confisco de bens e obstáculos à emigração. Para muitos, um visto estrangeiro não era um simples documento. Era a diferença entre a possibilidade de embarcar e a permanência forçada em um país que os empurrava para a ruína.
Foi nesse ambiente que Aracy conheceu João Guimarães Rosa, então cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo. O futuro autor de Grande Sertão: Veredas participou da rotina diplomática em que os pedidos de visto passavam pelo consulado. A relação entre os dois, depois transformada em casamento, não deve obscurecer a autonomia da atuação de Aracy. A documentação e a memória dos sobreviventes associam seu nome a decisões práticas, tomadas no balcão consular, no contato com famílias perseguidas e na preparação de papéis para viagem.[2]
A barreira brasileira: vistos, antissemitismo e a Circular Secreta 1.127
O obstáculo não estava apenas em Berlim. No Brasil de Getúlio Vargas, a política migratória foi marcada por critérios de seleção étnica, medo social e antissemitismo em setores do Estado. A Constituição de 1934 já havia fixado cotas de imigração por nacionalidade, e o Itamaraty passou a enviar instruções reservadas aos consulados para dificultar a entrada de judeus.[3]
A Circular Secreta 1.127, editada em 1937 e aplicada no período seguinte, determinava a recusa de visto quando fosse conhecida a “origem étnica semítica” do interessado, salvo exceções específicas, como casos de pessoas que se declarassem católicas e apresentassem documentação religiosa. Essa linguagem revela o caráter racializado da triagem: a questão não era apenas religião, mas a classificação do indivíduo como judeu perante a burocracia estatal.[3]
Por isso, a atuação de Aracy teve duas frentes. De um lado, precisava lidar com o regime nazista, que controlava a vida civil, a circulação e a saída de judeus. De outro, precisava contornar ordens brasileiras que restringiam a concessão de vistos. A versão mais repetida por testemunhos e estudos afirma que ela omitia a marcação que identificaria requerentes judeus e colocava processos entre documentos a serem assinados, reduzindo a chance de bloqueio administrativo.[2]
O trabalho de salvar: papéis, abrigo e embarques
O salvamento não se fez por um único gesto espetacular. Ele dependia de sequência, discrição e tempo: receber pessoas perseguidas, orientar pedidos, preparar documentação, obter vistos, contornar exigências, acompanhar etapas de embarque e, quando possível, ajudar no transporte de recursos. A historiadora Mônica Raisa Schpun, autora de uma das pesquisas mais importantes sobre o tema, reconstruiu essa rede a partir de arquivos brasileiros, alemães e israelenses, além de trajetórias de refugiados que chegaram ao Brasil.[4]
O Museu do Holocausto de Curitiba registra que Aracy chegou a alojar judeus em sua própria casa nos dias anteriores ao embarque pelo porto de Hamburgo. O Memorial do Holocausto também menciona casos concretos associados ao seu auxílio, como Margarethe Bertel-Levy e seu marido, abrigados durante a Noite dos Cristais, o pogrom de 9 e 10 de novembro de 1938. Entre os nomes citados nas memórias do reconhecimento estão Albert Feis, Grethe Jacobsberg, Tuch e Kazenstein.[2][5]
O número exato de pessoas ajudadas por Aracy continua tratado com cautela pela historiografia. Textos de divulgação costumam falar em centenas de vidas, enquanto registros de reconhecimento internacional se apoiam em testemunhos documentados de famílias e indivíduos identificados. A diferença entre memória pública e prova documental não diminui a importância de sua ação. Ela apenas obriga o relato histórico a separar homenagem de contabilidade.
Guimarães Rosa no consulado e a escolha de permanecer
Guimarães Rosa serviu em Hamburgo entre 1938 e 1942, período em que o cerco aos judeus se agravou e a guerra transformou a cidade em ponto sensível da diplomacia. Ele assinava documentos e, segundo relatos posteriores, colaborou com Aracy na concessão de vistos. Ainda assim, a história não deve reduzir Aracy à condição de “mulher de Guimarães Rosa”. Ela já estava inserida no consulado, conhecia a rotina da seção de passaportes e se tornou o rosto mais lembrado por sobreviventes que procuraram ajuda brasileira em Hamburgo.[1][2]
O casal permaneceu na Alemanha até 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo. Em agosto daquele ano, após ataques de submarinos alemães a navios brasileiros, o país declarou guerra à Alemanha e à Itália. Para Aracy, a saída de Hamburgo encerrou a fase mais perigosa de sua atuação consular, mas não apagou o vínculo com as famílias que haviam conseguido escapar.
Reconhecimento tardio e memória pública
Em 3 de junho de 1982, o Yad Vashem, instituição israelense dedicada à memória do Holocausto, reconheceu Aracy de Carvalho Guimarães Rosa como Justa entre as Nações, título concedido a não judeus que arriscaram a própria segurança para salvar judeus durante a perseguição nazista. A lista oficial do Yad Vashem registra Aracy entre os dois brasileiros reconhecidos nessa categoria, ao lado do diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, homenageado em 2003.[1]
O reconhecimento ocorreu décadas depois dos fatos. Essa demora ajuda a explicar por que sua história circulou por muito tempo de forma fragmentada, ligada ora à literatura de Guimarães Rosa, ora à memória familiar dos sobreviventes, ora à história da diplomacia brasileira. A publicação de Justa: Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil, de Mônica Raisa Schpun, em 2011, deu nova densidade documental ao tema e deslocou Aracy para o centro da narrativa.[4]
Aracy morreu em São Paulo, aos 102 anos, em 28 de fevereiro de 2011, segundo registro jornalístico publicado em março daquele ano. Sofria de Alzheimer nos últimos anos de vida. Sua trajetória permanece ligada a uma contradição brasileira: em um tempo de restrições oficiais e preconceitos de Estado, uma funcionária consular usou o próprio posto para produzir brechas de sobrevivência.[6]
Imagens do artigo original



FAQ
Perguntas frequentes sobre Aracy de Carvalho
Quem foi Aracy de Carvalho?
Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa foi uma brasileira que trabalhou no consulado do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, e ajudou judeus perseguidos pelo nazismo a obter documentos e vistos para sair do país.
Por que ela ficou conhecida como Anjo de Hamburgo?
A expressão se refere à ajuda prestada por Aracy a judeus em Hamburgo, especialmente por meio da emissão e facilitação de vistos, apoio material e acolhimento em momentos de risco.
O governo brasileiro apoiava a entrada de judeus refugiados?
Não de forma ampla. Durante o governo Vargas, circulares secretas do Itamaraty restringiram a concessão de vistos a judeus, o que tornou a atuação de Aracy ainda mais arriscada e politicamente sensível.
Aracy de Carvalho recebeu reconhecimento internacional?
Sim. Em 1982, o Yad Vashem reconheceu Aracy como Justa entre as Nações, honraria concedida a não judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto.
Leia também
- Segunda Guerra Mundial
- Holocausto
- Brasil na Segunda Guerra Mundial
- Getúlio Vargas
- Guimarães Rosa
Fontes e leituras complementares
- Yad Vashem. Yad Vashem. 2024. Righteous Among the Nations Honored by Yad Vashem by 1 January 2024: Brazil.
- Museu do Holocausto de Curitiba. Museu do Holocausto de Curitiba. s.d.. Justos entre as Nações e o Brasil.
- Johan Ickx e colaboradores. Revista de História, SciELO. 2022. A diplomacia pontifícia e os refugiados judeus no Brasil (1939-1941): uma investigação preliminar nos arquivos de Pio XII.
- Mônica Raisa Schpun. Civilização Brasileira. 2011. Justa: Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil.
- Memorial do Holocausto. Memorial do Holocausto. 2025. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011).
- Donizete Costa. O Globo. 2011. Morre em SP aos 102 anos a viúva do escritor Guimarães Rosa, Aracy Moebius.
