Curiosidades Militares

O Cerco de Jadotville: a verdadeira história da batalha

0

Conheça a história real que inspirou o filme O Cerco de Jadotville

Após alcançar sua independência, em 30 de junho de 1960, o Congo, que até aquele dia era uma colônia belga, passou a se denominar como República do Congo. Em sequência a esse fato histórico, Patrice Lumumba, com apoio dos soviéticos, foi quem assumiu o posto de primeiro-ministro daquele país após a realização de uma eleição.

Com a fim das relações de dependência entre o Congo e a Bélgica, não demorou até que os negros alistados na Force Publique, a força militar do Congo em seu período colônia, se amotinassem e se rebelassem contra os oficiais brancos belgas, o que culminou em uma onda de violência e em um sentimento anti-branco entre o povo congolês.

Entre as primeiras medidas de Lumumba como primeiro-ministro estava a abolição da Force Publlique e a criação do Armée Nationale Congolaise (Exército Nacional Congolês), o que gerou uma rápida reação por parte da Bélgica, que enviou tropas para a proteção dos cidadãos brancos instalados no território do Congo.

Lumumba então apelou para que o Conselho de Segurança da ONU intervisse em prol da remoção dos militares belgas de seu país, apelação essa recebida de forma positiva e, com isso, foi criada a ONUC (Opération des Nations Unies au Congo, ou Operação das Nações Unidas no Congo), e tropas da organização foram enviadas ao país para a manutenção da paz.

Início de uma guerra civil

Tropas da irlandesas no Congo um ano antes do Cerco de Jadotville

Tropas da irlandesas no Congo um ano antes do Cerco de Jadotville

Poucos dias antes da chegada das tropas da ONU, no dia 11 de julho de 1960, com total apoio e suporte de empresários e do exército Belga, Moise Tshombe, político altamente anticomunista, tomou a província de Katanga e declarou sua independência do Congo. A região era de grande importância para a economia do país devido as riquezas minerais presentes em seu solo.

Posteriormente, em 23 de julho do mesmo ano, a região foi abandonada pelas forças belgas, porém, continuou ocupada por tropas mercenárias. Dessa forma, tendo de um lado o governo do Congo, liderado por Lumumba, e de outro a província separatista de Katanga, chefiada por Tshombe, a ONU se viu em maio a uma guerra civil.

Veja também: 10 curiosidades sobre a Guerra do Vietnã

Diante disso, o então Secretário-Geral da ONU, Dag Hjalmar Agne Carl Hammarskjöld, determinou, em fevereiro de 1961, o emprego de força militar para impedir o avanço dos conflitos. Para isso, um diplomata irlandês chamado Conor Cruise O’Brien foi escalado como seu representante especial para o Congo.

Companhia A

Companhia A

Comandante Quinlan (primeiro à esquerda) ao lado de membros da Companhia A

Liderados pelo comandante Pat Quínlan, 158 homens entrariam para a história durante os embates ocorridos no território congolês. Eles pertenciam a Companhia A do 35º Batalhão de Infantaria do Exército Irlandês e, em sua grande maioria, não tinham mais que 20 e tantos anos e nunca sequer estiveram em combate real.

A companhia teria seu nome cravado na história após o Secretário-Geral da ONU decidir enviar tropas para a cidade de Jadotville, em meio ao território de Katanga, atendendo a um pedido feito pelo ministro das Relações Exteriores da Bélgica, que temia pela vida de colonos belgas e da população local que, segundo ele, estava desprotegida. Sendo assim, em setembro de 1961, a Campanhia A seguiu rumo a Jadotville para proteger seus cidadãos, porém, não foi bem recebida pelos que receberiam tal proteção.

Tendo em vista as boas vindas nada amigáveis, o comandante Quilan não viu outra alternativa se não estabelecer um perímetro defensivo no entorno do local que utilizaram como base. A ordem era de que seus soldados construíssem trincheiras, acumulassem um estoque de água e, principalmente, mantivessem suas armas carregadas e prontas para o uso em cem por cento do tempo.

O cerco de Jadotville

Pat Quinlan, comandante da Companhia A

Pat Quinlan, comandante da Companhia A

Deveria ser uma missão simples, porém, culminou em uma batalha histórica. Os 158 homens da Companhia A se viram diante de um inimigo composto por uma tropa de cerca de 3 mil combatentes, composta em sua maioria por guerreiros da tribo Luba que contavam com o apoio de mercenários oriundos da Bélgica, França e até mesmo da antiga Rodésia, atualmente conhecida como Zâmbia e Zimbabué.

Veja também: 10 Inovações mais surpreendentes que surgiram na Guerra

Além da grande vantagem numérica, as tropas de Katanga também estavam muito mais bem armadas, contando com armamento leve, pesado, morteiros de 81mm, um canhão de 75mm, apoio aéreo de um caça a jato Fouga Magister e contavam também com a liderança do mercenário René Faulques, um experiente ex-coronel francês e paraquedista da Legião Estrangeira contratado por Tshombe, enquanto os irlandeses utilizavam apenas rifles FN FAL, obsoletas metralhadoras vickers com refrigeração a base d’agua, morteiros de 60 mm e uma metralhadora leve Bren.

O ataque inicial partiria das forças lideradas por Faulques no dia 13 de setembro, por volta das 07h40. Enquanto grande parte dos integrantes da Companhia A assistia a uma missa, um sentinela irlandês realizou um disparo de alerta, mobilizando todos os combatentes para revidar ao ataque. A partir daí, a batalha teria uma duração de cerca de cinco dias.

Mesmo inferior em números de armas e de soldados, a Companhia A mostrou extrema destreza durante o conflito e, com seus morteiros 60 mm, conseguiu destruir diversas posições de morteiros e metralhadoras das forças de Katanga.

Além da desvantagem, os soldados da missão de paz da ONU ainda tiveram que lidar com o desabastecimento proveniente da falta de logística adequada e da demora extrema para a chegada de reforços. Por diversas vezes, a fim de ganhar tempo, Quinlan chegou a negociar um cessar-fogo com Faulques e com o prefeito de Jadotville, porém, não obteve sucesso.

Para abastecer a Companhia A, um helicóptero norueguês ainda chegou a transportar água até a posição irlandesa, no entanto, os recipientes nos quais foi transportada, anteriormente utilizados para armazenar gasolina, tornaram toda a água recebida imprópria para o consumo. Esta teria sido a única ajuda, de fato, recebida.

A ONU ainda tentou realizar operações de socorro utilizando tropas suecas, irlandesas e o Gurkhas indiano, no entanto, o fato dos katanganeses terem isolado Jadotville e controlarem a ponte sobre o rio Lufira tornou impossível o avanço dos reforços.

Já sem munição, sem água, sem comida, sem qualquer esperança de que reforços estariam chegando, sem previsão de abastecimento de suprimentos e com seus veículos totalmente destruídos pelo inimigo, a Companhia A se viu sem uma rota de fuga e foi obrigada a se entregar.

O saldo final da batalha: as tropas katanganesas registraram entre 200 e 300 mortos, sendo 30 deles mercenários, e entre 300 e 1000 rebeldes feridos, número esse que varia de fonte para fonte. Já entre os irlandeses, apesar da grande diferença numérica, não houve nenhuma baixa e o número de feridos chegou a apenas cinco.

A liberdade da Companhia A após se renderem aos Katanganeses foi negociada pela ONU em troca de prisioneiros rebeldes sob custódia do governo do Congo.

Apesar o grande feito do grupo em resistir por tanto tempo em condições precárias e sem contabilizar uma baixa sequer, inicialmente, as Forças de Defesa Irlandesas não deram o devido reconhecimento à Companhia. As especulações dão conta de que isso se deva por vergonha pela rendição ou até mesmo para acobertar erros estratégicos do mais alto escalão da ONU.

Todavia, décadas depois, em 2016, o governo da Irlanda concedeu uma Citação Presidencial de Unidade à Companhia A. No ano seguinte, em outubro de 2017, uma placa foi instalada no Condado de Kerry, terra natal de Quinlan, em homenagem ao comandante. Algumas semanas depois, em 2 de dezembro de 2017, oito sobreviventes do Cerco de Jadotville foram condecorados com medalhas especiais em Athlone.

Vale ressaltar, ainda, que as táticas utilizadas pelo comandante Quinlan na defesa de sua companhia, Jadotville, teve influência direta nos programas de treinamento e, segundo a RTÉ (Raidió Teilifís Éireann, uma organização pública de comunicação da Irlanda, as mesmas táticas foram “citadas em livros militares no mundo inteiro como o melhor exemplo do uso da chamada defesa de perímetro”.

Filme O Cerco de Jadotville

Cena do filme O Cerco de Jadotville

Cena do filme O Cerco de Jadotville

A Netflix lançou em 2016 um longa em homenagem aos irlandeses pertencentes a Companhia A, que resistiram bravamente durante o cerco na cidade de Jadotville no decorrer de uma missão de paz da ONU. O filme tem bom conceito no IMDb, é bem visto pela crítica, retrata com fidelidade os acontecimentos que se tem conhecimento e é uma ótima opção para os amantes de filmes de guerra.

Informações da produção: IMDb

Clique para classificar este post!
[Total: 3 Média: 5]
Higor Mendes
Redator com cinco anos de experiência, apaixonado por história da Segunda Guerra Mundial, política, futebol e curiosidades em geral.

    Os melhores Jogos de Guerra para PC

    Artigo anterior

    Luger P08: a pistola mais desejada da Segunda Guerra Mundial

    Próximo artigo

    Comentários

    Os comentários estão fechados.