História 13 min
Almirante Tamandaré: o patrono da Marinha e a construção do poder naval brasileiro
Neste artigo
- Resumo rápido
- Um menino do litoral no início do Brasil independente
- Da fragata Niterói à Guerra da Cisplatina
- A Marinha como força de unidade interna
- Vapor, salvamento e profissionalização naval
- O Prata e a política externa do Império
- Guerra da Tríplice Aliança: comando, limites e Riachuelo
- O patrono da Marinha: memória, instituição e política
- Últimos anos e a imagem do velho marinheiro
- Como Tamandaré ajuda a entender o poder naval brasileiro
- Perguntas frequentes
- Perguntas frequentes sobre o Almirante Tamandaré
- Quem foi o Almirante Tamandaré?
- Por que Joaquim Marques Lisboa recebeu o nome Tamandaré?
- Qual foi o papel de Tamandaré na Guerra do Paraguai?
- Quando Tamandaré virou patrono da Marinha?
- Onde e quando morreu o Almirante Tamandaré?
- Fontes e leituras complementares
Almirante Tamandaré é o nome pelo qual Joaquim Marques Lisboa entrou na memória naval brasileira. Nascido no Rio Grande de São Pedro, em 13 de dezembro de 1807, ele atravessou quase todo o século XIX como oficial da Armada Imperial, da Guerra da Independência à Guerra da Tríplice Aliança, passando pelas rebeliões internas do período regencial e pela consolidação da presença brasileira no Prata.[1]
Sua biografia costuma ser lembrada em tom cerimonial, mas o interesse histórico está em outro ponto: Tamandaré viveu a passagem da Marinha a vela para a Marinha a vapor, ocupou comandos de mar em momentos críticos e ajudou a transformar a força naval em instrumento de integração, pressão diplomática, transporte, bloqueio e projeção política do Império.
Resumo rápido
- Nome completo: Joaquim Marques Lisboa, depois Marquês de Tamandaré.
- Nascimento: 13 de dezembro de 1807, na Vila de Rio Grande de São Pedro, atual Rio Grande, no Rio Grande do Sul.[1]
- Entrada na Marinha: voluntário da Armada em 4 de março de 1823, em meio à consolidação da Independência.[1]
- Conflitos principais: Guerra da Independência, Guerra da Cisplatina, revoltas regenciais, Campanha Oriental e Guerra da Tríplice Aliança.
- Posto máximo: almirante, promoção de 21 de janeiro de 1867.[1]
- Memória institucional: o Aviso nº 3.322, de 4 de setembro de 1925, consagrou 13 de dezembro como Dia do Marinheiro e associou oficialmente Tamandaré ao patronato naval.[4]
Um menino do litoral no início do Brasil independente
Joaquim Marques Lisboa nasceu em uma sociedade portuária, marcada por comércio costeiro, navegação de barra e disputas políticas que vinham desde o fim do período colonial. Seu pai, Francisco Marques Lisboa, aparece nas fontes da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha como segundo-tenente honorário e ex-patrão-mor do porto de Rio Grande de São Pedro. Esse dado ajuda a explicar a familiaridade precoce do jovem com embarcações, ventos, canais e rotinas de navegação.[1]
A entrada na Armada ocorreu em 1823, quando o Brasil recém-independente ainda precisava impor sua autoridade sobre províncias e portos onde persistiam forças leais a Portugal. O adolescente embarcou na fragata Niterói como ajudante de navegação do comandante John Taylor, oficial britânico a serviço do Império. A Biblioteca Nacional registra que, aos 15 anos, ele participou das operações ligadas à Bahia e da perseguição ao comboio português que deixou Salvador após a rendição lusitana.[2]
A experiência de 1823 é decisiva para entender a carreira posterior. A Marinha do Brasil Imperial nasceu com forte presença de estrangeiros, navios heterogêneos e urgência operacional. Tamandaré não se formou apenas em escolas formais. A própria guerra lhe deu aprendizado prático em patrulha, perseguição, comando de tripulações e navegação oceânica.
Da fragata Niterói à Guerra da Cisplatina

Em 1824, Joaquim Marques Lisboa matriculou-se na Academia Imperial de Marinha, mas logo voltou ao serviço ativo durante as operações contra a Confederação do Equador. Embarcou na nau Pedro I, capitânia da esquadra brasileira sob Thomas Cochrane, nome central na organização inicial da Armada imperial. A passagem pela campanha de Pernambuco mostrou uma característica recorrente do século XIX brasileiro: a Marinha era chamada tanto para conflitos externos quanto para crises políticas internas.[1]
Na Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828, ele já aparecia como jovem oficial em uma frente que testou os limites do poder naval brasileiro no estuário do Prata. Promovido segundo-tenente efetivo em 26 de janeiro de 1826, serviu na canhoneira Leal Paulistana e teve atuação citada na batalha naval de Corales. Em seguida recebeu seu primeiro comando, a escuna Constança, integrando uma expedição à Patagônia sob o capitão de fragata James Shepherd.[1]
A campanha foi dura para a Armada. Após a morte de Shepherd, Tamandaré foi feito prisioneiro com outros militares brasileiros, mas conseguiu retornar a Montevidéu depois de tomar o brigue Ana. Em 1828, comandando a escuna Bela Maria, recuperou a escuna Januária, tomada pelos argentinos no ano anterior e rebatizada Ocho de Febrero. A mesma fase inclui ação de destaque na tomada da corveta General Dorrego.[1]
A Marinha como força de unidade interna
O período regencial colocou a Armada diante de uma tarefa politicamente delicada: sustentar a autoridade central sem transformar cada operação em simples repressão militar. Tamandaré atuou em conflitos como a Cabanagem, no Pará, a Sabinada, na Bahia, a Balaiada, no Maranhão, e a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. A Biblioteca Nacional observa que a missão no Sul o desagradava por envolver conterrâneos, mas seu afastamento foi breve e ele voltou à atividade em 1839, colaborando nas operações contra a Balaiada ao lado das forças terrestres de Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias.[2]
Essa fase revela uma faceta menos romântica da história naval brasileira. Navios não serviam apenas para enfrentar esquadras inimigas. Eles levavam tropas, bloqueavam acessos fluviais, escoltavam autoridades, transportavam suprimentos e ligavam regiões onde estradas eram precárias. Para um Estado de dimensões continentais, controlar rios, barras e portos era parte da própria administração do território.
As promoções acompanham essa trajetória de confiança institucional. Tamandaré tornou-se capitão-tenente em 22 de outubro de 1836, capitão de fragata em 2 de outubro de 1839, capitão de mar e guerra graduado em 14 de março de 1847 e efetivo em 14 de março de 1849. Em 1852 chegou a chefe de divisão, em 1854 a chefe de esquadra e, em 1856, a vice-almirante.[1]
Vapor, salvamento e profissionalização naval
A figura de Tamandaré também pertence à história tecnológica da Marinha do Brasil Imperial. Em 1847, já capitão de mar e guerra graduado, foi nomeado comandante da fragata a vapor Dom Afonso, construída na Inglaterra. O vapor encurtava distâncias, reduzia a dependência dos ventos e mudava a lógica de bloqueios e reboques. Para uma marinha acostumada a velas, casco de madeira e artilharia tradicional, era uma transição técnica e cultural.
No comando do Dom Afonso, Tamandaré ganhou reputação internacional por ações de salvamento. Em 24 de agosto de 1848, participou do resgate de tripulantes e passageiros da galera inglesa Ocean Monarch, incendiada nas proximidades de Liverpool. A Marinha registra que o governo britânico lhe ofereceu um cronômetro de ouro e que também recebeu medalhas ligadas ao episódio.[1]
Dois anos depois, em condições de mau tempo perto da barra do Rio de Janeiro, o Dom Afonso rebocou para dentro da baía a nau portuguesa Vasco da Gama, desmastreada por forte vento sudoeste. O reconhecimento da colônia portuguesa veio na forma de uma espada de ouro. Esses episódios importam porque deslocam Tamandaré da imagem estreita do comandante de combate. No século XIX, competência marinheira também significava salvar vidas, preservar navios e dominar manobras difíceis com tecnologia em transformação.[4]
O Prata e a política externa do Império

A bacia do Prata era o grande tabuleiro estratégico da política brasileira no século XIX. O Império dependia da navegação fluvial para alcançar Mato Grosso, acompanhar a política uruguaia e conter pressões vindas de Buenos Aires, Montevidéu e Assunção. Tamandaré, portanto, não foi apenas um oficial de carreira longa. Ele comandou em uma região onde diplomacia e marinha caminhavam juntas.
Em 1850, assumiu comando na fragata Constituição e na Divisão Naval do Rio da Prata. Mais tarde, em 1864, foi designado comandante-em-chefe das Forças Navais Brasileiras em operações no Rio da Prata, função que exerceu até 1866.[1] A Biblioteca Nacional registra que, na Campanha Oriental, ordenou o bloqueio do rio Uruguai e participou das operações que alcançaram Salto, Paissandu e Montevidéu, em meio à crise que antecedeu a Guerra da Tríplice Aliança.[2]
O título de Barão de Tamandaré, concedido em 1860, liga a carreira militar à memória familiar. O nome remetia ao porto de Tamandaré, em Pernambuco, onde seu irmão, o major Manuel Marques Lisboa, morrera durante os conflitos de 1824. A progressão nobiliárquica viria depois: visconde em 1865, conde em 1887 e marquês em 1888.[4]
Guerra da Tríplice Aliança: comando, limites e Riachuelo
Quando a Guerra da Tríplice Aliança começou, em 1864, Tamandaré já era um chefe experiente, com décadas de serviço e forte ligação com D. Pedro II. Como vice-almirante, exerceu o Comando em Chefe da Esquadra brasileira em operações contra o Paraguai e também o comando inicial da Primeira Divisão da Esquadra Aliada. A página histórica do Comando em Chefe da Esquadra informa que a força aliada era praticamente toda composta por navios brasileiros, enquanto a Segunda e a Terceira Divisões passaram por outros comandantes, entre eles José Segundino Gomensoro e Francisco Manoel Barroso da Silva.[3]
A Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, ocorreu no rio Paraná, perto do arroio Riachuelo, na província argentina de Corrientes. A divisão brasileira comandada por Barroso reunia a fragata Amazonas, as corvetas Parnaíba, Jequitinhonha, Beberibe e Belmonte, além das canhoneiras Iguatemi, Araguari, Mearim e Ipiranga.[3]
O combate expôs um problema operacional claro. Os navios brasileiros tinham maior calado e encontravam dificuldade em águas rasas, enquanto as forças paraguaias buscavam usar o terreno fluvial, margens artilhadas e embarcações menores para reduzir a vantagem imperial. A vitória brasileira em Riachuelo quase anulou a capacidade naval paraguaia e deu aos aliados controle decisivo sobre a navegação naquele trecho, comprometendo abastecimento e logística de Francisco Solano López.[3]
Tamandaré não comandou diretamente a divisão no calor da batalha, papel exercido por Barroso, mas sua posição no comando superior da esquadra integra Riachuelo ao desenho estratégico mais amplo da guerra. Ele permaneceu no comando até 1866, quando foi substituído por Joaquim José Ignácio, futuro Visconde de Inhaúma. Em 21 de janeiro de 1867, foi promovido a almirante, o posto máximo da carreira naval.[1]
O patrono da Marinha: memória, instituição e política
O reconhecimento de Tamandaré como patrono da Marinha consolidou uma escolha institucional feita já na República. O Aviso nº 3.322, de 4 de setembro de 1925, do ministro Alexandrino Faria de Alencar, instituiu 13 de dezembro, data de seu nascimento, como Dia do Marinheiro e associou seu nome à tradição da força naval.[4]
A escolha dizia muito sobre o tipo de memória que a Marinha desejava cultivar. Tamandaré oferecia continuidade: servira desde a Independência, atravessara o Império, aderira a uma ética profissional rígida e terminara a vida já sob a República. Ao mesmo tempo, sua imagem permitia reunir guerra, navegação, salvamento, disciplina e serviço de Estado em uma narrativa única.
A memória pública se ampliou fora da própria Marinha. Em 12 de outubro de 1953, o Decreto nº 34.152 determinou que o Forte da Lage, situado em frente à barra da Baía de Guanabara, passasse a chamar-se Forte Tamandaré a partir de 13 de dezembro daquele ano. O texto do decreto apresentava a homenagem como gesto do Exército à Marinha, na pessoa de seu patrono.[5]
Últimos anos e a imagem do velho marinheiro

Com a Proclamação da República, em 1889, Tamandaré pediu transferência para a reserva. A reforma foi concedida em 20 de janeiro de 1890. Já reformado, exerceu o cargo de ministro do Supremo Tribunal Militar entre 1893 e 1897. Morreu no Rio de Janeiro em 20 de março de 1897 e foi sepultado no dia seguinte no cemitério de São Francisco Xavier.[1]
Sua carta-testamento reforçou a autoimagem de simplicidade e serviço. O trecho mais conhecido, reproduzido pela Marinha, pedia que a pedra de sua sepultura trouxesse a inscrição:
Aqui jaz o Velho Marinheiro. Joaquim Marques Lisboa.[4]
Há nesse pedido uma construção consciente de memória. O marquês, condecorado por diferentes governos e reconhecido no Brasil e no exterior, preferiu fixar para si a identidade profissional de marinheiro. Essa palavra resumia melhor sua longa trajetória do que a hierarquia nobiliárquica recebida no Império.
Como Tamandaré ajuda a entender o poder naval brasileiro
A carreira de Joaquim Marques Lisboa mostra que o poder naval brasileiro no século XIX não se limitava à quantidade de navios ou à artilharia embarcada. Ele dependia de oficiais capazes de operar em mar aberto, rios interiores, portos instáveis e crises políticas simultâneas. Dependia também de arsenais, tripulações, tecnologia, cartografia, carvão, manutenção e decisões de governo.
O Almirante Tamandaré tornou-se patrono da Marinha porque sua vida permitiu à instituição narrar uma continuidade rara: da fragata Niterói em 1823 ao cruzador Almirante Tamandaré, lançado ao mar no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro em março de 1890.[1] Entre esses dois marcos, a Armada Imperial deixou de ser uma força improvisada da Independência e tornou-se uma ferramenta central do Estado brasileiro no Atlântico Sul e na bacia do Prata.
Esse legado não precisa ser lido como culto sem crítica. A trajetória de Tamandaré esteve ligada a guerras externas, repressões internas e disputas políticas do Império. Ainda assim, para compreender a história naval brasileira, poucos personagens concentram de modo tão claro as tensões entre técnica, comando, Estado, memória e mar.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes sobre o Almirante Tamandaré
Quem foi o Almirante Tamandaré?
Almirante Tamandaré foi Joaquim Marques Lisboa, oficial da Marinha do Brasil Imperial nascido em 13 de dezembro de 1807, no atual Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Serviu desde a Guerra da Independência até o fim do Império e tornou-se patrono da Marinha do Brasil.
Por que Joaquim Marques Lisboa recebeu o nome Tamandaré?
O nome veio do título nobiliárquico concedido por D. Pedro II. Ele remetia ao porto de Tamandaré, em Pernambuco, ligado à morte de Manuel Marques Lisboa, irmão de Joaquim, nos conflitos de 1824.
Qual foi o papel de Tamandaré na Guerra do Paraguai?
Ele exerceu o comando superior das forças navais brasileiras em operações na Guerra da Tríplice Aliança entre 1864 e 1866. A vitória de Riachuelo, em 11 de junho de 1865, foi travada por uma divisão comandada diretamente por Francisco Manoel Barroso da Silva, dentro do quadro estratégico naval em que Tamandaré ocupava posição superior.
Quando Tamandaré virou patrono da Marinha?
A consagração institucional ocorreu pelo Aviso nº 3.322, de 4 de setembro de 1925, do ministro Alexandrino Faria de Alencar. A data de nascimento de Tamandaré, 13 de dezembro, passou a ser o Dia do Marinheiro.
Onde e quando morreu o Almirante Tamandaré?
Joaquim Marques Lisboa morreu no Rio de Janeiro em 20 de março de 1897. Foi sepultado no dia seguinte no cemitério de São Francisco Xavier.
Fontes e leituras complementares
- Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Marinha do Brasil. s.d.. Almirante Joaquim Marques Lisboa, Marquês de Tamandaré: Patrono da Marinha do Brasil.
- Fundação Biblioteca Nacional. Biblioteca Nacional Digital, Dossiê Guerra do Paraguai. s.d.. Almirante Tamandaré.
- Comando em Chefe da Esquadra. Marinha do Brasil. 2023. Batalha Naval do Riachuelo.
- Comando em Chefe da Esquadra. Marinha do Brasil. 2023. Almirante Tamandaré.
- Presidência da República, Casa Civil. Planalto. 1953. Decreto nº 34.152, de 12 de outubro de 1953.
