Pular para o conteúdo

História 12 min

Maria Quitéria: independência, identidade e serviço militar feminino no Brasil imperial

Por

Retrato histórico educativo inspirado em Maria Quitéria com uniforme militar do século XIX
Representação educativa de Maria Quitéria, combatente baiana da Independência do Brasil e referência histórica do serviço militar feminino.

Maria Quitéria entrou na história militar brasileira por uma porta estreita: a do alistamento disfarçado, em uma guerra provincial que ajudou a consolidar a Independência do Brasil para além do gesto político de 7 de setembro de 1822. Nascida na Bahia, provavelmente em 1792, ela se apresentou como soldado no esforço armado contra as forças portuguesas que controlavam Salvador e permaneceu em serviço mesmo depois de identificada como mulher.[3]

Sua biografia costuma ser contada como exceção heroica. Essa leitura é compreensível, mas incompleta. Maria Quitéria foi uma personagem real de uma guerra real, marcada por recrutamento irregular, conflitos entre elites provinciais, presença popular nas fileiras e disputa sobre quem teria lugar na nova ordem política brasileira. A força de sua trajetória está justamente nessa fricção entre norma social e necessidade militar.

Resumo rápido

  • Maria Quitéria de Jesus nasceu na freguesia de São José das Itapororocas, atual região de Feira de Santana, na Bahia, com data de nascimento geralmente situada em 1792.[3]
  • Em 1822, deixou a fazenda da família, vestiu roupas masculinas e alistou-se usando o nome José Medeiros, associado ao sobrenome do cunhado.[1]
  • Serviu nas forças ligadas ao Exército Pacificador, formado no Recôncavo Baiano contra as tropas portuguesas comandadas por Inácio Luís Madeira de Melo em Salvador.[2]
  • Depois da campanha, recebeu de D. Pedro I a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro em 20 de agosto de 1823.[1]
  • Em 1996, tornou-se Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, e em 2018 teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.[6][5]

A Bahia onde a Independência ainda precisava ser conquistada

A Independência do Brasil não se resolveu num único dia. Em 1822 e 1823, a Bahia era um dos principais pontos de tensão entre o governo do Rio de Janeiro, alinhado a D. Pedro, e forças portuguesas que continuavam instaladas em Salvador. A cidade estava sob influência militar portuguesa, enquanto o Recôncavo se transformou em área de mobilização política e armada.

O Arquivo Nacional observa que o Exército Pacificador nasceu de milícias das vilas que se voltaram contra a Junta Governativa da Bahia, ligada às Cortes Portuguesas. Nessa guerra, havia soldados brasileiros fugidos de Salvador, homens livres pobres, libertos, negros, pardos, indígenas e, em algumas circunstâncias, escravizados que viam no conflito uma possibilidade de mudança social.[2]

Esse dado muda a escala da biografia. Maria Quitéria não apareceu em um exército regular já estabilizado, mas em uma campanha que improvisava efetivos, disputava legitimidade e lidava com tensões sociais profundas. A entrada de uma mulher armada nas fileiras era excepcional, mas o ambiente militar baiano também era menos ordenado do que as comemorações posteriores fariam supor.

Da Serra da Agulha ao alistamento como Soldado Medeiros

Mapa do Recôncavo Baiano com locais ligados à campanha de Maria Quitéria
O Recôncavo Baiano foi o principal espaço de mobilização contra as forças portuguesas instaladas em Salvador.

Quando o movimento de Independência chegou à região, Maria Quitéria vivia na fazenda da Serra da Agulha, na freguesia de São José das Itapororocas. A Biblioteca Nacional registra que um emissário da junta de governo esteve na propriedade em setembro de 1822 para recrutar voluntários. Gonçalo Alves de Almeida, pai de Maria Quitéria, não aceitou a participação da filha.[3]

A solução encontrada foi sair de casa. Maria Quitéria foi à casa de sua irmã Josefa, recebeu roupas do cunhado e apresentou-se vestida como homem. O nome usado no alistamento, José Medeiros, tornou-se parte da memória de sua passagem pelas armas. O Arquivo Nacional nota que o sobrenome Medeiros foi adotado justamente no contexto do disfarce militar.[1]

A tradição posterior frequentemente dramatizou esse episódio, às vezes com falas atribuídas ao pai ou à própria Maria Quitéria. O ponto documental mais seguro é menos teatral e mais forte: ela burlou a regra social que excluía mulheres do combate, entrou no serviço armado e foi mantida nele após a descoberta de sua identidade. O comandante poderia tê-la removido para restaurar a aparência de normalidade. A decisão de mantê-la indica que sua utilidade militar foi reconhecida dentro de uma campanha que precisava de gente treinável, disciplinada e resistente.

O Batalhão dos Periquitos e a campanha no Recôncavo

Maria Quitéria aparece associada aos Voluntários do Príncipe e ao batalhão que ficou conhecido como Periquitos, referência ao penacho verde atribuído às fardas. O Arquivo Nacional descreve esse batalhão como composto majoritariamente por homens de cor, livres ou libertos, e também por mulheres, incluindo Maria Quitéria.[2]

A atuação dela é relacionada a pontos estratégicos da guerra na Bahia. A Biblioteca Nacional menciona sua presença em ações na ilha da Maré, na foz do rio Paraguaçu, em Pituba e Itapuã.[3] Estudos acadêmicos também destacam a defesa da foz do Paraguaçu, região importante porque conectava rotas do Recôncavo e limitava movimentos de desembarque.[7]

O general Pierre Labatut, oficial francês contratado para comandar o Exército Pacificador, concedeu-lhe honras de primeiro cadete no batalhão número 3, segundo o Arquivo Nacional.[1] A própria presença de Labatut mostra como o Brasil nascente recorria a oficiais estrangeiros e, ao mesmo tempo, sofria resistências locais contra esse comando. Em maio de 1823, o coronel baiano Joaquim José de Lima e Silva assumiu a liderança militar até o fim da guerra na Bahia.[2]

O caso de Maria Quitéria, portanto, atravessa duas fronteiras. A primeira era de gênero, porque o serviço armado formal era masculino. A segunda era de pertencimento político, porque o próprio significado de ser brasileiro ainda estava em disputa. O Arquivo Nacional adverte que termos como patriota e nacional exigem cuidado nesse período, já que identidades provinciais ainda pesavam muito.[2]

Uniforme, reconhecimento e controle da imagem

Depois que sua identidade foi conhecida, Maria Quitéria não voltou simplesmente ao anonimato da tropa. A Biblioteca Nacional registra que foi solicitada para ela uma veste especial, com saiote sobre as calças, além de uma espada, combinação que depois marcaria seus retratos.[3] O detalhe do uniforme não é folclore secundário. Ele revela como a sociedade imperial tentou acomodar uma mulher combatente sem abandonar completamente os códigos visuais de feminilidade.

Em outras palavras, a farda autorizava o serviço, mas o saiote domesticava a imagem. A espada afirmava reconhecimento militar, mas o retrato precisava explicar ao público que aquela combatente continuava identificável como mulher. Esse ajuste visual ajudou a transformar Maria Quitéria em símbolo palatável para a monarquia: extraordinária o bastante para ser celebrada, controlada o bastante para não virar precedente imediato de abertura ampla às mulheres.

A viajante inglesa Maria Graham encontrou Maria Quitéria no Rio de Janeiro e incluiu referência a ela no livro publicado em 1824, obra que se tornou fonte importante para a iconografia da personagem. O acervo da Câmara dos Deputados identifica o livro de Graham como uma das publicações relevantes do século XIX sobre o Brasil da Independência, com ilustrações baseadas em desenhos da autora.[4]

A condecoração de 20 de agosto de 1823

Gravura educativa de Maria Quitéria em uniforme militar do século XIX
A iconografia de Maria Quitéria combinou sinais de reconhecimento militar e códigos sociais de feminilidade.

A guerra na Bahia terminou com a entrada das forças brasileiras em Salvador em 2 de julho de 1823, data que se tornou central na memória baiana da Independência. Poucas semanas depois, Maria Quitéria seguiu para o Rio de Janeiro. Em 20 de agosto de 1823, D. Pedro I permitiu que ela usasse a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro e determinou soldo de alferes, segundo registro do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional.[1][3]

O documento imperial é revelador pela escolha das palavras. Ele reconhece seus serviços militares, mas faz questão de frisar a excepcionalidade em relação ao sexo da condecorada:

prestara à Causa da Independência deste Império na porfiosa Restauração da capital da Bahia

A frase aparece no ato transcrito pelo Arquivo Nacional, assinado no Paço em 20 de agosto de 1823.[1] A monarquia premiava a combatente e, ao mesmo tempo, enquadrava seu feito como raro. Essa ambiguidade é decisiva para entender a memória posterior: Maria Quitéria foi admitida como exceção honrosa, não como mudança institucional imediata.

Depois da guerra: retorno, família e silêncio documental

As fontes são mais abundantes para os meses de guerra e reconhecimento do que para a vida posterior. A Biblioteca Nacional informa que, de volta à Bahia, Maria Quitéria casou-se com Gabriel Pereira, teve uma filha, Luísa Maria da Conceição, e morreu em 21 de agosto de 1853, em decorrência de doença no fígado.[3]

Esse silêncio é comum em biografias de mulheres do século XIX, especialmente quando a documentação pública só se interessava por elas em momentos excepcionais. Maria Quitéria entrou nos papéis oficiais quando serviu, quando foi condecorada e quando se tornou útil à narrativa da Independência. Sua vida cotidiana depois da campanha permaneceu menos visível.

Há aqui um cuidado historiográfico necessário. Quanto menos documentação, maior a tentação de preencher lacunas com cenas edificantes. Um bom retrato de Maria Quitéria não precisa transformar cada gesto em lenda. O essencial já é historicamente expressivo: uma mulher baiana cruzou uma barreira institucional, serviu em campanha e recebeu reconhecimento imperial por sua participação na restauração de Salvador.

Primeira mulher militar ou símbolo construído depois?

Maria Quitéria é frequentemente apresentada como a primeira mulher a entrar em combate nas Forças Armadas do Brasil. O próprio Exército Brasileiro a reconhece como a primeira mulher a combater nas Forças Armadas do país durante a Guerra de Independência de 1822 a 1824.[8] A formulação é importante, mas precisa ser lida com rigor.

No período, o Brasil ainda organizava suas instituições militares nacionais. Além disso, mulheres participaram de guerras de diferentes formas, muitas vezes em apoio logístico, redes de informação, abastecimento, cuidado de feridos, mobilização local ou combate informal. O mérito de Maria Quitéria não exige apagar outras presenças femininas, como Maria Felipa de Oliveira na Bahia ou tantas mulheres anônimas das vilas do Recôncavo.

O que a distingue é a combinação rara de três elementos: alistamento reconhecido, atuação em campanha e condecoração imperial documentada. Esse tripé a tornou mais fácil de ser incorporada à história militar oficial. A memória de Maria Quitéria, portanto, é ao mesmo tempo registro de participação feminina e produto de seleção institucional.

Do Império ao Exército Brasileiro contemporâneo

Documento imperial simbolizando a condecoração concedida a Maria Quitéria
Em 20 de agosto de 1823, D. Pedro I autorizou Maria Quitéria a usar a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro.

A incorporação simbólica de Maria Quitéria ganhou novo impulso no século XX. Em 28 de junho de 1996, decreto federal instituiu Maria Quitéria de Jesus como Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.[6] A escolha dialogava com a criação do Quadro Complementar de Oficiais, em 1992, marco da presença feminina em carreiras militares técnicas no Exército, segundo texto institucional da própria Força.[8]

Em 26 de julho de 2018, a Lei nº 13.697 inscreveu os nomes de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, Sóror Joana Angélica de Jesus, Maria Felipa de Oliveira e João Francisco de Oliveira, conhecido como João das Botas, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.[5]

Esses reconhecimentos tardios dizem tanto sobre ela quanto sobre o Brasil que a releu. O Império a condecorou como exceção individual. A República a reinscreveu como referência institucional para mulheres militares. Entre um gesto e outro, passaram-se mais de 170 anos de mudanças lentas, resistências corporativas e disputas de memória.

O lugar de Maria Quitéria na história militar brasileira

Maria Quitéria não deve ser reduzida a ornamento patriótico nem convertida em personagem sem contradições. Sua trajetória ilumina a Independência do Brasil como processo armado, regional e socialmente desigual. Também expõe o modo como a história militar brasileira, durante muito tempo, registrou mulheres quando elas cabiam em imagens de exceção, mas teve dificuldade de enxergar participação feminina como fenômeno histórico mais amplo.

O julgamento mais justo é vê-la como soldado de uma conjuntura específica. Ela agiu no Recôncavo, serviu em unidades mobilizadas contra o controle português de Salvador, recebeu honras de cadete, foi condecorada por D. Pedro I e depois voltou a uma vida menos documentada. Sua grandeza histórica não depende de exagero. Depende de precisão.

Ao recolocar Maria Quitéria no cenário da Bahia de 1822 e 1823, a biografia deixa de ser apenas uma narrativa de coragem individual. Ela se torna uma entrada para compreender recrutamento, identidade política, gênero e memória militar no nascimento do Estado brasileiro.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes sobre Maria Quitéria

Quem foi Maria Quitéria?

Maria Quitéria de Jesus foi uma combatente baiana da Guerra de Independência na Bahia. Ela se alistou disfarçada como Soldado Medeiros e serviu nas forças do Exército Pacificador contra tropas portuguesas em 1822 e 1823.[1]

Maria Quitéria lutou em quais locais?

As fontes a associam a ações na ilha da Maré, na foz do rio Paraguaçu, em Pituba e Itapuã, pontos ligados à campanha pela retomada de Salvador.[3]

Por que Maria Quitéria usou o nome Soldado Medeiros?

Ela adotou roupas masculinas e usou o nome José Medeiros, ligado ao sobrenome do cunhado, para conseguir alistar-se em um ambiente militar formalmente masculino.[1]

Maria Quitéria foi reconhecida pelo Império?

Sim. Em 20 de agosto de 1823, D. Pedro I concedeu a ela o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro e soldo de alferes.[1]

Qual é a relação de Maria Quitéria com o Exército Brasileiro atual?

Em 1996, Maria Quitéria foi instituída Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, tornando-se referência institucional para a presença feminina na Força.[6]

Fontes e leituras complementares

  1. Arquivo Nacional. Arquivo Nacional, Governo Federal. 2022. Maria Quitéria recebe a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro.
  2. Arquivo Nacional. Arquivo Nacional, Governo Federal. 2022. Apontamentos sobre a independência do Brasil na Bahia.
  3. Roberta Valle. Biblioteca Nacional Digital, Fundação Biblioteca Nacional. 2022. 200 da Independência | 21 de agosto, falecimento de Maria Quitéria.
  4. Maria Graham. London: Longman, Hurst, Rees, Orme, Brown, and Green, and J. Murray, acervo da Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados. 1824. Journal of a voyage to Brazil and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823.
  5. Presidência da República. Planalto. 2018. Lei nº 13.697, de 26 de julho de 2018.
  6. Presidência da República. Portal da Câmara dos Deputados. 1996. Decreto de 28 de junho de 1996, institui como Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro Maria Quitéria de Jesus.
  7. Miriam Pillar Grossi, Joana Maria Pedro e autoras associadas. SciELO Brasil. 2022. Agências de mulheres nas independências: das lutas bolivarianas aos levantes brasileiros.
  8. Exército Brasileiro. EBlog, Exército Brasileiro. 2018. Maria Quitéria e as Mulheres Guerreiras.
Clique para classificar este post!
[Total: 0 Média: 0]