A história da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial costuma ser lembrada pelos combates em Monte Castello, Montese, Castelnuovo e por tantas outras ações que marcaram a campanha da FEB na Itália. Mas nem todos os brasileiros que morreram em solo italiano tombaram diretamente diante do inimigo.
Entre 1944 e 1945, muitos pracinhas perderam a vida em acidentes, afogamentos, explosões acidentais, atropelamentos, doenças, incidentes com armamentos e episódios ocorridos durante deslocamentos ou atividades de serviço. Essas mortes, embora não tenham acontecido no calor do combate, também fazem parte do custo humano da guerra.
A guerra não mata apenas nas trincheiras. Ela também cobra vidas nas estradas enlameadas, nos acampamentos improvisados, nos treinamentos, nos hospitais, nos deslocamentos noturnos e nos momentos em que o soldado, longe de casa, ainda vive sob a pressão permanente do conflito.
A face menos lembrada da campanha brasileira na Itália
A FEB desembarcou na Itália em 1944 para integrar o esforço aliado contra as forças alemãs e fascistas. O soldado brasileiro encontrou um país devastado, estradas perigosas, terrenos montanhosos, inverno rigoroso e uma rotina marcada por risco constante.
Nesse ambiente, o perigo não se limitava às armas inimigas. Caminhões, jipes, minas, granadas, rios, armas de fogo e até prédios danificados pela guerra se tornaram parte de uma realidade instável. Em muitos casos, os acidentes aconteceram quando os militares estavam em serviço. Em outros, ocorreram durante treinamento, deslocamento ou em momentos de descanso.
Essas baixas ajudam a entender uma dimensão pouco comentada da presença brasileira na Itália. O front não era apenas a linha onde se atirava. Para o pracinha, a guerra estava também na estrada, no acampamento, no posto de socorro e no silêncio pesado depois das batalhas.
Frei Orlando e uma das mortes mais simbólicas da FEB
Entre os casos mais conhecidos está o do Capitão Capelão Antônio Alvares da Silva, o Frei Orlando. Natural de Moravânia, Minas Gerais, ele servia no 11º Regimento de Infantaria e morreu em 20 de fevereiro de 1945, em Docce.
Frei Orlando seguia em um jipe rumo à frente de combate para prestar assistência religiosa à tropa que se preparava para atacar Monte Castello. O veículo ficou preso em um trecho da estrada. Ao tentar retirar uma pedra que impedia a passagem, um partigiano usou o cabo do fuzil. A arma disparou acidentalmente e atingiu o capelão no peito.
Sua morte se tornou uma das mais lembradas da campanha. Frei Orlando foi o oficial de maior patente da FEB a morrer na Itália.
Acidentes nas estradas italianas
Grande parte das baixas não combatentes envolveu veículos. Jipes, caminhões e automóveis eram indispensáveis para deslocar tropas, suprimentos, armas, feridos e oficiais. Ao mesmo tempo, circulavam por estradas castigadas pela guerra, muitas vezes estreitas, escorregadias e mal iluminadas.
Entre os nomes ligados a acidentes de veículo aparecem o Cabo Agnaldo Saturnino Rocha, falecido em Granaglione em 23 de dezembro de 1944; o 3º Sargento Alcides de Oliveira, morto em Valdibura em 6 de fevereiro de 1945; o 2º Tenente Aluizio Farias, falecido em 7 de maio de 1945 durante serviço; e o Soldado André Ermelindo Ribeiro, vítima de acidente de caminhão em Livorno, também em 7 de maio de 1945.
Há ainda registros de militares mortos em Pisa, Parma, Gênova, Voghera, Marano, Porreta Terme, Vada, Gabba, Roma e outras localidades. A repetição desses casos mostra como a logística da guerra era, por si só, uma frente de risco.
Afogamentos, doenças e explosões acidentais
Outros brasileiros morreram longe das estradas. O Soldado Antônio Aparecido, natural de Mococa, São Paulo, morreu afogado em Tarquinia, em 12 de agosto de 1944, quando se banhava no mar com companheiros de companhia. O Soldado Antônio Martins de Oliveira, de Sorocaba, faleceu em Vada, em 1º de setembro de 1944, também por afogamento. O Soldado Antônio de Souza, de Cruz das Almas, Bahia, morreu no Rio Pó em 19 de maio de 1945.
As doenças também aparecem nos registros. O Soldado Daniel Rodrigues dos Santos, natural de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, faleceu em 19 de maio de 1945 no 16th Hospital. O Soldado Dionízio Lorenzi, de Rodeio, Santa Catarina, morreu em Nápoles em 20 de dezembro de 1944. O Soldado Laurentino da Silva Nonato, de Rosário do Oeste, Mato Grosso, faleceu em Livorno em 27 de fevereiro de 1945.
Também ocorreram mortes por explosões acidentais e manuseio de armamentos. O Soldado José Ferreira, do Rio de Janeiro, recolhia minas desativadas por seu pelotão quando um caminhão de transporte explodiu em Malondrona, em 5 de abril de 1945. A explosão matou não apenas ele, mas também outros quatro soldados.
Outro caso foi o do Soldado José Guilherme da Silva, natural de Maceió, Alagoas, morto durante treinamento no Depósito de Pessoal da FEB em Pistóia, quando uma granada explodiu e feriu outros militares.
O peso psicológico da guerra
A guerra também atingia a mente dos homens enviados ao front. O caso do Soldado Augusto Gonçalves Cardoso, natural de Joinville, Santa Catarina, chama atenção por esse aspecto. Integrante do 1º Batalhão de Saúde, ele faleceu em Alessandria, em 11 de junho de 1945, após tirar a própria vida em um bar.
Esse tipo de registro lembra que a campanha na Itália não pode ser vista apenas pelo número de batalhas vencidas. O desgaste emocional, o medo constante, a distância da família, a convivência com a morte e a dureza do ambiente deixaram marcas profundas nos combatentes.
Relação das baixas citadas
A relação abaixo reúne os militares brasileiros da FEB mencionados nos registros de baixas por causas não combatentes na Itália.
- Soldado Abilio José dos Santos, natural de Colatina, Espírito Santo. Servia no I/1º RAPC e faleceu em 23 de fevereiro de 1945, em Salvagliano, vítima de acidente com arma de fogo.
- Cabo Agnaldo Saturnino Rocha, natural de Salvador, Bahia. Servia no 1º RI e faleceu em 23 de dezembro de 1944, em Granaglione, vítima de acidente de jipe.
- 3º Sargento Alcides de Oliveira, natural de Ribeirão Preto, São Paulo. Servia no I/1º ROAuR e faleceu em 6 de fevereiro de 1945, em Valdibura, vítima de acidente de caminhão.
- 2º Tenente Aluizio Farias, natural de São Paulo. Servia no 11º RI e faleceu em 7 de maio de 1945, vítima de acidente de veículo quando estava de serviço.
- Soldado Amphilofio Silveira Lessa, natural de Cambuci, Rio de Janeiro. Servia no 1º RI e faleceu em 23 de março de 1945, em S. Pelegrino, vítima de acidente de veículo.
- Soldado André Ermelindo Ribeiro, natural de Juqueri, Minas Gerais. Servia no 6º RI e faleceu em 7 de maio de 1945, em Livorno, vítima de acidente de caminhão quando estava de serviço.
- Capitão Capelão Antônio Alvares da Silva, o Frei Orlando, natural de Moravânia, Minas Gerais. Servia no 11º RI e faleceu em 20 de fevereiro de 1945, em Docce, vítima de disparo acidental.
- Soldado Antônio Aparecido, natural de Mococa, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 12 de agosto de 1944, em Tarquinia, vítima de afogamento.
- Soldado Antônio Martins de Oliveira, natural de Sorocaba, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 1º de setembro de 1944, em Vada, vítima de afogamento.
- Cabo Antônio Pinton, natural de Araras, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 13 de dezembro de 1944, em Marano, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Antônio de Souza, natural de Cruz das Almas, Bahia. Servia no DP/FEB e faleceu em 19 de maio de 1945, no Rio Pó, vítima de afogamento.
- Soldado Arthur Lourenço Staerck, natural de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Servia no CRP/DP e faleceu em 12 de maio de 1945, em Gabba, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Atualpa Pereira Leite Filho, natural do Rio de Janeiro. Servia no 1º RI e faleceu em 28 de maio de 1945, em Roma, vítima de acidente de caminhão.
- Soldado Augusto Gonçalves Cardoso, natural de Joinville, Santa Catarina. Servia no 1º Batalhão de Saúde e faleceu em 11 de junho de 1945, em Alessandria.
- 1º Sargento Basileo Nogueira da Costa, natural de Paraibuna, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 24 de abril de 1945, em Tole, vítima de acidente de carro.
- Cabo Benedito Alves, natural de Três Corações, Minas Gerais. Servia no Esquadrão de Reconhecimento e faleceu em 17 de novembro de 1944, em Casa Franco, vítima de acidente com metralhadora Thompson durante treinamento.
- 3º Sargento Benedito Francisco da Silva, natural de Barra Mansa, Rio de Janeiro. Servia no II/1º ROAuR e faleceu em 5 de maio de 1945, em Parma, vítima de acidente de automóvel.
- Soldado Berly Azevedo Vieira, natural de Nilópolis, Rio de Janeiro. Servia no I/1º ROAuR e faleceu em 3 de março de 1945, em Pistóia, vítima de acidente de jipe.
- 3º Sargento Carlos Walter Hisserich, natural do Rio de Janeiro. Servia no I/1º ROAuR e faleceu em 24 de junho de 1945, em Marano, vítima de acidente de automóvel.
- Cabo Clower Bastos Côrtes, natural de Além Paraíba, Minas Gerais. Servia no 11º RI e faleceu em 30 de maio de 1945, em Gênova, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Daniel Rodrigues dos Santos, natural de Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Servia no CRP/FEB e faleceu em 19 de maio de 1945 no 16th Hospital, em consequência de doença.
- 3º Sargento Dermeval de Souza Gil, natural de Niterói, Rio de Janeiro. Servia no 1º RI e faleceu em 16 de maio de 1945, afogado no lado norte do Rio Pó, em Piacenza.
- Soldado Dionízio Lorenzi, natural de Rodeio, Santa Catarina. Servia no I/2º ROAuR e faleceu em 20 de dezembro de 1944, em Nápoles, em consequência de doença.
- Soldado Dirceu de Almeida, natural de Cerqueira César, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 20 de dezembro de 1944, em Porreta Terme, vítima de acidente de caminhão.
- Soldado Edmundo Arrabar, natural de Porto União, Santa Catarina. Servia no DP/FEB e faleceu em 18 de maio de 1945, em Livorno, vítima de acidente de caminhão.
- Cabo Elizeu Pinhal, natural de Caçapava, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 19 de outubro de 1944, em Barga, vítima de acidente.
- 2º Tenente Ernani Marones de Gusmão, natural do Rio de Janeiro. Servia no CPR/FEB e faleceu em 1º de setembro de 1945 no 300th Hospital, vítima de acidente com arma de fogo.
- Soldado Ernesto Gonçalves, natural de Paranaguá, Paraná. Servia no 6º RI e faleceu em 11 de setembro de 1945, em Camaiore, vítima de acidente com mina durante instrução.
- 2º Sargento Fabio Pavani, natural de Capivari, São Paulo. Servia na 1ª Bia AD/1 e faleceu em 8 de maio de 1945, na estrada Voghera a Broni, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Francisco Alves de Azevedo, natural do Rio de Janeiro. Servia no QG/1ª DIE e faleceu em 28 de maio de 1945, em Alessandria, assassinado em um café durante conflito entre militares.
- 2º Sargento Francisco Firmino Pinho, natural de Quixeramobim, Ceará. Faleceu em 11 de novembro de 1944, em Valdibura, vítima de acidente de carro.
- Subtenente Francisco Hierro, natural de São Paulo. Servia no DP/FEB e faleceu em 13 de janeiro de 1945, em Porreta Terme, vítima do desabamento de um prédio.
- Soldado Francisco Vitoriano, natural de Campinas, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 27 de novembro de 1944, em Nápoles, de morte natural.
- Soldado Gentil Guimarães de Oliveira, natural do Espírito Santo. Servia no DP/FEB e faleceu em 5 de junho de 1945, em Tortona, vítima de acidente de carro.
- Soldado Geraldo Rosa, natural de São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 20 de maio de 1945, em Marano, vítima de acidente de carro.
- Soldado Hileno Ramos Marinho, natural de Araruama, Rio de Janeiro. Servia no 1º RI e faleceu em 20 de maio de 1945, em Parola, ao manusear uma granada de mão fora de serviço.
- 3º Sargento Isanor Furquim de Campos, natural de São Paulo. Servia no 11º RI e faleceu em 17 de novembro de 1944, em Pisa, vítima de acidente de caminhão.
- Soldado Ivo Robach de Oliveira, natural de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Servia no 11º RI e faleceu em 23 de agosto de 1945, em Vada, vítima de acidente de carro.
- 1º Tenente João Maurício de Campos Medeiros, da FAB. Faleceu em 2 de fevereiro de 1945, em Alessandria. Ao saltar de paraquedas após ter seu avião abatido, bateu em um fio de alta tensão.
- Soldado José Custodio Sampaio, natural de Caucaia, Ceará. Servia no 1º RI e faleceu em 22 de maio de 1945, em Parola, vítima de acidente.
- Soldado José Ferreira, natural do Rio de Janeiro. Servia na Cia do QG e faleceu em 5 de abril de 1945, em Malondrona, durante explosão de caminhão que transportava minas recolhidas.
- Soldado José Gomes, natural do Rio de Janeiro. Servia no 1º RI e faleceu em 18 de maio de 1945, em San Lázaro, atropelado por uma ambulância.
- Soldado José Guilherme da Silva, natural de Maceió, Alagoas. Servia no CPR/FEB e faleceu em 16 de abril de 1945, em Pistóia, durante treinamento com granada no Depósito de Pessoal da FEB.
- Soldado José de Morais, natural de Barra do Piraí, Rio de Janeiro. Servia na 1ª Companhia de Metralhadoras Leves e faleceu em 13 de dezembro de 1944, em Bombiana, vítima de acidente de jipe.
- Soldado Laercio Xavier de Mendonça, natural de São João de Bocaina, São Paulo. Servia no 1º RI e faleceu em 3 de maio de 1945, em Milão, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Laurentino da Silva Nonato, natural de Rosário do Oeste, Mato Grosso. Servia no DP/FEB e faleceu em 27 de fevereiro de 1945, em Livorno, em consequência de doença.
- Soldado Manoel Eduardo de Souza, natural de Jaicós, Piauí. Servia no CRP/FEB e faleceu em 8 de junho de 1945, em Piacenza, vítima de acidente com granada alemã quando estava em serviço.
- 2º Sargento Oswaldino Mendes Rocha, natural de Itassu, Espírito Santo. Servia no 9º BE e faleceu em 12 de fevereiro de 1945, na região de Monte Castello, vítima de acidente de jipe.
- Soldado Pedro Mariano de Souza, natural de Muniz Freire, Espírito Santo. Servia no 1º RI e faleceu em 29 de outubro de 1944, em Pisa, vítima de acidente de caminhão.
- Soldado Pelopidas Pessamani, natural de São Francisco de Assis, Rio Grande do Sul. Servia no CRP/FEB e faleceu em 12 de março de 1945, em Mandragone, morto por engano por um sentinela do Rest Camp americano.
- 1º Sargento Rodoval Cabral da Trindade, natural de Ceará Mirim, Rio Grande do Norte. Servia no 6º RI e faleceu em 6 de junho de 1945, em Voghera, vítima de acidente de jipe.
- Soldado Sebastião Vanna, natural de Niterói, Rio de Janeiro. Servia no II/1º ROAuR e faleceu em 18 de agosto de 1944, vítima de acidente de jipe.
- Soldado Severino da Costa Villar Filho, natural do Rio de Janeiro. Servia no Depósito de Intendência e faleceu em 24 de abril de 1945, na região de Tolé, vítima de acidente de caminhão quando transportava tropas para o front.
- Soldado Teodoro Francisco Ribeiro, natural de Taubaté, São Paulo. Servia no 6º RI e faleceu em 3 de setembro de 1944, em Vada, vítima de acidente de veículo.
- Soldado Vasco Teixeira da Silva, natural de São João del Rei, Minas Gerais. Servia no 1º RI e faleceu em 4 de maio de 1945, em Porreta Terme, vítima de acidente de veículo.
Uma memória que também precisa ser contada
As baixas não combatentes da FEB mostram que a experiência brasileira na Itália foi mais ampla do que os ataques, as patrulhas e as conquistas militares. A vida dos pracinhas estava cercada por perigos contínuos. Muitos morreram sem que seus nomes ficassem ligados a uma batalha específica, mas isso não diminui o peso do sacrifício.
Esses homens deixaram o Brasil, atravessaram o Atlântico e serviram em um dos períodos mais duros da história contemporânea. Alguns morreram em serviço, outros durante treinamento, outros em deslocamentos, hospitais, rios e estradas italianas.
Todos fazem parte da memória da Força Expedicionária Brasileira.
Pesquisa histórica: Marcos Bueno
Fontes consultadas na pesquisa original:
A FEB pelo seu comandante, do General João Batista Mascarenhas de Moraes; A luta dos pracinhas, de Joel Silveira e Thassilo Mitke; e Crônicas de Guerra, de Rubens Braga.

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